futilidades produtivas.

Abril 16, 2008

Por estes dias resolvi inovar no estilo. Andei observando as italianas que parecem pensar milimetricamente em cada peça de vestuário que colocam sobre o corpo. Sem qualquer pretensão de chegar perto de sua elegância, larguei de lado o tênis e o jeans, companheiros de viagem de todas as horas há anos, tão meus que qualquer outra pessoa, ainda que com o mesmo peso e a mesma altura, não conseguiria vesti-los, pois todas as saliências e reentrâncias do meu corpo estão ferozmente ali gravadas. Com o frio já não tão insuportável quanto o do inverno, o super-ultra-casaco, que mais parece uma roupa de astronauta, também pôde passar mais tempo dobrado na mala.

Pois bem, um casaco de lã trapézio, uma calça jeans escura e justa e uma bota de cano alto marrom de couro fosco e modelo italianos, registre-se sem salto (aí também era demais!!!), em poucas palavras, fizeram meu visual no almoço de domingo no porto de Hamburgo.

Toda essa nova produção, que para muitas não significa nada além, me poupou de mais uma tentativa frustrada de interação com o garçom no idioma alemão e me rendeu de cara, por parte dele, um:

- Prego, signora, sta bene?

Ganhei o dia e vou me vestir sempre assim agora!

aeroporto de Lisboa.

Abril 15, 2008

Como se já não bastassem os ingleses, os alemães e os espanhóis, agora “nossos primos-irmãos” portugueses também fuçam nossa vida para saber se somos dignos o suficiente para a entrada em seu país. Ora bolas, quem são eles…

Não sei se tenho cara de menina-boa ou, na verdade, de menina-que-não-está-nem-aí-pra-eles, mas a abordagem que me fazem sempre é muito tranqüila. O problema é ter que assistir de mãos atadas à agressiva abordagem a tantas outras mulheres que, como eu, viajavam sozinhas. Eles olham as mulheres de cima a baixo, falam grosso para intimidar, perguntam quanto tempo vão ficar, o que vão fazer, com quem vão estar, pedem pra ver a passagem de volta, comprovantes de hotel, se estes não existem, cartas das pessoas que as convidaram… e, ainda assim, se tudo estiver dentro dos conformes, pedem para que elas se dirijam a um lugar ao lado onde novos questionamentos serão feitos.

Duas questões me inquietam. A primeira relaciona-se “à sorte” de termos nascido brasileiros ou franceses ou argentinos ou alemães ou portugueses ou sul-africanos… e mandarmos todos os demais às favas, pois não são problema nosso. O direito internacional e as questões comunitárias nunca foram mesmo uma área de grande interesse meu, mas logo se vê quão pequenas ficam as questões estatais internas diante da incapacidade de cada Estado de resolver seus próprios problemas (tomando a realidade brasileira como parâmetro, claro!) (apesar de podermos analisar o Brasil como primo pobre, como o exemplo que ora me chamou a atenção, como também como o primo rico – em algumas outras poucas!!).

A segunda é saber que esta “preocupação migratória” vem de dados que comprovam que alto índice percentual de prostitutas e subempregadas em Portugual pertence às brasileiras. Estes dados inclusive vão mais além e retratam que “as mulheres brasileiras que se prostituem em Portugal são maiores de idade, não possuem antecedentes nesta atividade no Brasil, têm um curso médio ou superior, são caucasianas, prostituem-se por motivos financeiros, e chegaram ao país por sua própria conta – e não inseridas em redes de tráfico de pessoas.” Estes são dados de uma pesquisa encomendada pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) de Portugal.

Estas mulheres vêm em busca de uma saída, de uma esperança, de um lugar ao sol. Coisas que o Brasil não lhes conseguiu oferecer, em certa medida, porque “nossos primos-irmãos” nos sugaram até onde podiam.

Minhas bobas e superficiais reflexões são apenas para dizer que fico triste ao ver estas mulheres saírem de uma situação de invisibilidade em seu próprio país para uma situação de incômodo expresso num outro país. Ficarem à mercê da sorte. E, se antes desprovidas de uma cidadania material, agora estarão desprovidas de uma cidadania também formal.